terça-feira, 4 de outubro de 2016

Exame Ginecológico

Hoje vou falar-vos da minha primeira tentativa de fazer um exame ginecológico.

Antes ainda de começar o tratamento ao vaginismo, antes mesmo de procurar ajuda, numa consulta normal de rotina o meu médico de família achou que eu devia fazer um Papanicolau visto já ter mais de 25 anos.

Pensei logo que ele devia estar louco, nunca iria fazer esse exame. Mas fui para casa a pensar nisso, a pensar que se calhar lá em frente a outras pessoas e quanto mais não fosse por vergonha de me queixar, não ia ter outra solução a não ser aguentar e deixar meterem-me um espéculo, pensei que se fosse fazer o exame ia ultrapassar uma barreira. E lá fui.

Digo-vos que foi o pior episódio da minha vida, para piorar não fui a um ginecologista, fui a uma clínica onde tem técnicos a fazer esses exames, os quais não entendem nada, nem tem nenhum cuidado, enfim. 

Acreditem quando dizem que quem tem vaginismo e não consegue a penetração também não vai conseguir de maneira nenhuma fazer um papanicolau, é verdade. 

Entrei, tirei a roupa da cinta para baixo, deitei-me na maca e lá estava eu em pânico completamente contraída (o que não pode acontecer, é isso que faz com que exista a dor, temos que estar completamente descontraídas) e lá me tentaram introduzir o espéculo.

Esqueçam qual vergonha qual que, naquele momento nem pensei na vergonha comecei logo a implorar que parasse, que não conseguia, eu estava completamente contraída e a pessoa vendo isso em vez de parar e tentar ajudar-me a relaxar não, tentava na mesma à força toda introduzir o espéculo. Até que foi obrigada a parar, porque eu não parava de me queixar e comecei a fechar as pernas e a "fugir com o rabo" (sintomas de quem tem vaginismo) lá me tentou acalmar e mais uma segunda tentativa cheia de vontade. Esqueçam não houve uma terceira tentativa, antes disso levantei-me da maca e disse para esquecer que não ia fazer o exame e saí pela porta fora com as lágrimas nos olhos, foi muito mau e uma grande vergonha, nunca mais lá voltei. 

Foi mesmo um desastre e ainda fez com que eu ficasse com mais medo de introduzir o que quer que fosse na minha vagina, só piorou a situação.

O meu médico de família nunca soube nem sabe de nada sobre o meu vaginismo, nunca me senti muito à vontade com ele, então nunca lhe falei sobre isso. 
 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Mais sessões de fisioterapia :)

Tinha sessões de fisioterapia mais ou menos de 15 em 15 dias.

Já se vinha a tornar uma rotina, mas confesso que ia para 4ª sessão com mais medo ainda, só pensava que ia ser desta que íamos começar com a introdução do dedo. Muito medo.


4ª Sessão de Fisioterapia

E depois de mais um pouco de conversa lá vamos nós começar, ora bem, hoje vamos fazer tudo que temos feito até aqui mais a introdução da pontinha do dedo.

Voltou o pânico, suspirava de medo, comecei logo a contrair os músculos. É impressionante como o nosso cérebro comanda todo o nosso corpo, mal se falou em introduzir "ele" mandou logo um recado e os músculos lá começaram logo a contrair com toda a força com medo da dor.

A fisio muito paciente e amável lá me foi acalmando e voltando a dizer que só fazíamos o que eu quisesse e que tudo seria feito sem dor, que tinha de esquecer os meus pensamentos de dor e focar no que estava a sentir e ir contraindo e descontraindo.

Pois bem, lá fui tentando esquecer o meu pensamento de dor e ela lá me foi envolvendo na conversa até que...upss...já lá está a pontinha do dedo, é verdade, sem dor, com um pouco de  desconforto, mas sem dor.


Foi muito importante este passo, nunca pensei que fosse mesmo conseguir que algo entrasse na minha vagina. ;)

Os trabalhos de casa eram para continuar, fazer o mesmo que  vinha a fazer, insistindo mais no toque na entrada da vagina.

5ª Sessão de fisioterapia

Nesta sessão voltamos a fazer tudo, continuava com muitos suspiros, mas a verdade é que eram mais progressos, a fisio lá conseguiu inserir mais um bocadinho o dedo. 
Deixou o dedo lá por algum tempo e eu ia apertando (contrair) e largando o dedo (descontrair).
O pior era o movimento de entrada do dedo, aliás o grande problema está nessa entrada, é onde os músculos fazem mais força, o dedo estando lá dentro era muito mais pacifico. ;)
 E acaba mais uma sessão, e os trabalhos de casa para continuar.

 6ª Sessão de fisioterapia 
 
Confesso que cheguei a esta sessão um pouco desanimada, achei que como tinha corrido tão bem a ultima sessão, que eu em casa já iria conseguir mais qualquer coisa para além de tocar.
Mas não, nada...nem conseguia forçar um bocadinho a entrada, o medo era mais forte que eu (por isso é que tenho mesmo a certeza que sem a minha fisio não teria conseguido).

Ela lá me esteve a tentar animar e a explicar que o progresso em casa seria muito mais lento, pois tinha de ser eu a enfrentar os meus medos, lá fazemos o trabalho em conjunto tornando-se muito mais fácil. Ainda ouvi um "raspanete"...eheh... que nem sequer devia ter tentado inserir a ponta do dedo, pois ainda não tinha dado esse trabalho de casa ;) . Que tinha de ter calma e pensar nos progressos que já tinha tido mesmo em casa sozinha, pois eu mal conseguia olhar ao espelho, muito menos tocar na entrada da vagina, e agora isso já não me custava nada.

E depois de todas as lamentações lá começamos os exercícios, e mais progressos, lá está o dedo todo dentro de mim...yupiii
 
A serio, antes de entrar para a consulta era invadida por um sentimento de medo e desanimo, depois de cada consulta vinha mesmo animada, fazia-me mesmo bem, dava-me mesmo força para continuar.

A minha Fisio é mesmo TOP...

Algumas dúvidas...

Eram muitas as dúvidas...

Sinto-me um pouco envergonhada em falar sobre isto,  pois bem, eu tinha ideia que na nossa vagina tínhamos um "buraco" , ou seja, eu achava que tinha que abrir a vagina e ver um vazio, uma abertura...Mas não, isso não é possível, acreditem, não existe mesmo, o problema não é nosso.

A fisio explicou-me tudo direitinho, o problema é que nos livros, nas imagens aparece sempre um "buraco" no lugar da vagina...eheh...como se abríssemos as pernas e lá se abria o "buraco"... não sei se sou capaz de explicar, vou tentar :)

Assim de uma forma muito resumida...abrindo a vagina vemos as suas paredes coladas, é músculo a toda a volta, não vemos nenhum buraco, e esse musculo é que ao descontrair vai deixar a penetração acontecer, é elástico, vai se moldando.

O importante é descontrair, o que para nós que temos vaginismo é muito complicado. Temos aprender a contrair e descontrair, insistir muito nisso.

Algumas pessoas fazem este exercício de contrair e descontrair quando estão a urinar, mas não se deve, podem ganhar uma infecção urinária.

Isto pode parecer um bocado estranho, que foi o que eu achei na altura, mas uma das técnicas da minha fisio era imaginarmos que tínhamos uma ervilha na entrada da vagina e apanhar (contrair) largar (descontrair). Isso era um dos trabalhos de casa obrigatórios, pelo menos 3 vezes ao dia, desde da ultima sessão tinha que me lembrar sempre de contrair e descontrair. O que também vos digo que ao inicio nem conseguem sentir, mas com o tempo sim, vão sentir mesmo o que é contrair e descontrair.


3ª Sessões de Fisioterapia


Em todas as sessões começávamos por falar um pouco dos trabalhos de casa, das dúvidas e nesta sessão também falamos na importância de conseguirmos contrair e descontrair os músculos do  pavimento pélvico (são um grupo de músculos dentro da pélvis que formam o seu pavimento, Os músculos envolvem a uretra (passagem da bexiga), a vagina e o ânus-recto (passagem posterior) e devem, juntamente com os músculos do esfíncter, manter o controlo destas aberturas, impedindo a perda de urina ou fezes). Este exercício é muito importante não só para problemas como o nosso mas também para outros, como quem sofre de incontinência, por exemplo.
E depois de mais uma "aula" teórica lá vamos nós passar à pratica, voltamos à palpação externa, tocar no períneo e em toda a zona à volta da vagina e agora ir contraindo e descontraindo
E lá foi mais uma sessão, ainda sem qualquer tentativa de inserir o que quer que fosse, tudo com muita calma e sem dor.  
E mais trabalhos para casa todos aqueles que já tinha, mas agora acrescentando o contrair e descontrair, que era importante ser feito muitas vezes.

O que me levou a procurar ajuda?

Foi o passo mais difícil de tomar.

Acho que para mim o sexo nunca foi muito importante, ou melhor, a minha mentalidade não permitia que eu achasse o sexo importante na vida de um casal.

Sim eu e o JP embora não conseguíssemos a penetração sempre nos conseguimos envolver num bom "jogo erótico" (expressão usada pela fisio e pela psico), tínhamos prazer, sempre foi bom, mas um pouco "limitado".

Claro que neste ponto do tratamento vos digo que o nosso jogo erótico era muito fraquinho, evoluiu a 100%, permito-me coisas que antes não, mas pode sempre ainda melhorar mais ;)... já vou eu procurá-lo e antes isso nunca acontecia, ou era ele, ou não acontecia nada.

Inicialmente achava que tinha de fazer o tratamento mais por ele, para que ele tivesse mais prazer, IDEIA ERRADA, a penetração não vai fazer com que tenhamos mais prazer.

Como disse a minha Psico na primeira consulta "esqueçam a ideia de que a penetração é que vai ser um ponto alto do prazer, a penetração é mais uma das formas de ter prazer, não a única e essencial para que isso aconteça, muitas vezes as maiores sensações de prazer não são com penetração." 

Não tinha mesmo essa ideia.

Como ela me disse eu tenho que pensar que com o tratamento só vou arranjar mais uma forma de ter prazer, e resolver uma limitação que tenho neste momento e que no futuro também fará com que não tenha qualquer problema em tentar engravidar de forma normal (o que para mim também era uma preocupação).



1ª Sessão com a Psicóloga (Sexóloga)

Depois de já ter tido duas sessões de fisioterapia, chegou o dia da minha sessão com a psicóloga (sexóloga), aquele dia que para mim tinha tempo de chegar... ;)

Mas lá chegou, pois bem, o JP foi comigo, estava cheia de medo, não sabia muito bem o que me esperava e tinha tanta vergonha.

A minha ideia nunca foi o JP entrar comigo, era só ir comigo até à porta, mas a verdade é que a psico disse para ele entrar, fiz cara de quem não achou muita graça à ideia, e ela de tão boa psicóloga que é apercebeu-se logo disso e perguntou se era melhor termos uma conversa as duas antes de ele entrar, isto se eu quisesse que ele viesse a entrar. Eu disse que sim, o JP sempre esteve e está a par de tudo, mas acho que tinha de haver ali um primeiro momento só as duas, e assim foi.

Tivemos 30minutos só as duas, falamos sobre a minha família, sobre mim, quem me havia diagnosticado vaginismo, quais os meus medos, falamos também das duas sessões que já tinha tido com a fisio. 

Sou super envergonhada e a verdade é que comecei a falar e nunca mais me calei, entretanto chegou o JP e lá entrou, e foram mais 30 minutos de conversa mas agora sobre os dois e a nossa relação.

Foi muito boa e produtiva a consulta, nunca pensei, chegamos à conclusão que o sexo na minha vida e no meio envolvente sempre tinha sido um assunto "tabu" , andei num colégio de Irmãs (freiras), onde tudo era pecado e onde havia regras para tudo, sempre fui uma menina muito certinha, envergonhada, incapaz de fazer qualquer coisa fora das regras, e sim isso também traz consequências para a vida sexual. 

Mas no meio de tudo isto chegamos à conclusão que o meu maior problema era a o MEDO DA DOR e a ANSIEDADE, mesmo nunca tendo tido dor. A verdade é que já mais velha ouvindo muitas amigas que já tinham tido relações e devido a me terem sempre metido alguma medo em relação ao sexo, que doía, que ao outro dia não ia conseguir andar, etc.. o que acontecia é que antes de qualquer tentativa de penetração eu antecipava a dor, contraia os músculos, forçava para fechar as pernas e cortava qualquer tentativa.

Vim para casa mais leve, com a certeza absoluta que tinha encontrado as pessoas certas para me ajudarem nesta luta. :)

Trabalhos de casa - 2ª Sessão de Fisio

E os trabalhos de casa sempre presentes...

Continuar a visualizar o meu sistema genital ao espelho, identificar todas as partes e tocar, insistir no toque para tirar a ideia de desconforto e de nojo (que eu tinha). 



Confesso que odiava os trabalhos de casa, podia ter sido mais disciplinada, é essencial para o tratamento, embora possam pensar que não, eu também achava, mas depois de passar para outras etapas não tenho dúvidas de como foi importante.

Quem tiver nesta luta sozinha, sem ajuda de um profissional que faça sempre este exercício com um espelho de frente, identifiquem todas as parte e toquem em todas elas, podem fazer os exercícios no bidé, facilita muito, essa posição obriga-nos a estar mais descontraídas e não vamos ter logo aquela tendência que todas temos de fechar as pernas... :)